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Filhos... Filhos...
Por que tê-los?
Por Roger Abdelmassih*
Li o Poema Enjoadinho, de Vinicius Moraes, quando eu ainda era somente filho, na década de 1960. Foi quando me dei conta de que minha vida, a despeito do plano de ser médico, não teria sentido se eu não fosse pai. Na época, eu não imaginava que um dia eu estaria dedicado profissional e pessoalmente ao interesse do casal sem filhos, ajudando as pessoas a constituírem sua família.

O bom de envelhecer é poder enxergar a própria vida sob uma perspectiva histórica e compreender as coisas que só o tempo nos faz entender. Hoje, às vésperas de completar 40 anos de profissão médica, dos quais pelo menos 35 dedicados ao tratamento da infertilidade humana, posso dizer com requintes de sabedoria: seres humanos querem família. Chame de clã, chame de rede, chame do que for, mas você deve ter uma.

Se o casal não consegue fazer a sua família, dói. Dói muito. Uma dor profunda e ao mesmo tempo vazia, uma dor que dói não se sabe onde. Se eu pudesse extrair um ponto comum entre os milhares de casais inférteis que já atendi seria este: a dor da ausência. Nas mulheres, dói a frustração sob a forma de sangue todos os meses; no homem dói o pensamento de incompetência, de impotência. Para ambos, doem o silêncio, o colo vazio, a saudade de um filho que ainda nem chegou.

Os sentimentos angustiantes acabam por minar não só as forças individuais como também as próprias energias que permeiam a união do casal, afetando o relacionamento. Viver a infertilidade, além de frustrante, traz sentimentos amargos – de raiva diante das cobranças de amigos e de familiares, de inveja da amiga que engravidou na hora em que quis, de fracasso mensal, entre muitas outras emoções negativas e socialmente condenadas, embora legítimas.

A fertilização in vitro é uma esperança concreta para a imensa maioria dos casais que anseiam por um bebê, e muitos fazem sacrifícios que parecem desmedidos na busca da realização do sonho de ter uma família. Há quem possa questionar o afã com que esses casais se entregam à vontade de conceber um filho biológico, mas eu os compreendo perfeitamente. Acho que ser mãe, ou pai, é o maior aprendizado e a mais rica experiência que um ser humano pode ter em sua passagem pela Terra. É, sem dúvida, uma necessidade atávica de se perpertuar na vida. É a resposta dos nossos genes à mortalidade. É a vontade mais do que instintiva de preservar a espécie. É o amor feito biologia.

Hoje, a fertilização in vitro é capaz de dar bons resultados, de até 55%, por tentativa, aos casais (mulheres até 35 anos) que procuram a técnica para resolver problemas de infertilidade. Depois de ver minha família formada, criar meus cinco filhos e ver nascer meus 12 netos, dar os parabéns de gravidez às minhas pacientes é uma alegria renovada e emocionada. Eu me sinto, de fato, um instrumento de Deus por ter tido a oportunidade de realizar o sonho de milhares de casais ao longo da minha carreira. Assim como esses casais, eu valorizo o bem de fazer uma família, convivendo com todas as circunstâncias de estar em família – inclusive aquelas, as mais enjoadinhas, cantadas pelo poeta.

Em março de 2006, fizemos uma festa muito bonita para comemorar o nascimento de 5 mil bebês concebidos em nossa clínica. Em um determinado momento, ao som de Ode to Joy, 5 mil balões coloridos subiram aos céus de São Paulo, simbolizando as vidas que conseguimos colocar no mundo. Uma cena muito linda, que tocou o coração de todos, mas que me fez pensar nos outros tantos milhares de bebês que ainda estão acalentados nos sonhos de seus futuros pais e no quanto ainda é preciso fazer para solucionar o problema dos casais sem filhos.

* Roger Abdelmassih é médico especialista em reprodução humana

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