Trinta anos celebrando famílias
Por Roger Abdelmassih*
A história de resultados bem-sucedidos da fertilização in vitro está vivendo um tempo de comemoração: no dia 25 de julho de 2008, Louise Brown, o primeiro bebê nascido por técnicas de reprodução humana, completou 30 anos de vida. Quando esteve em nossa clínica, em novembro de 2007, Leslie Brown – a primeira mãe de fertilização in vitro – nos contou que rezava a Deus, pedindo que seu sonho fosse realizado e prometendo que nunca reclamaria das noites insones e das montanhas de fraldas. A vontade de ter um filho era enorme, alimentada por anos e anos de tratamentos e decepções recorrentes.

Ela e seu marido se prontificaram a participar do estudo clínico com uma técnica sendo realizada pelos cientistas Robert Edwards e Patrick Steptoe, na Universidade de Cambridge, Inglaterra. Os Brown já estavam desanimados, o casamento afundando, depois de seis anos de frustrações. Leslie tinha as tubas uterinas obstruídas – o que na época era uma esterilidade absoluta, sem esperança alguma. Portanto, participar de um estudo clínico, ainda que com chances reduzidas, submetendo-se a procedimentos dolorosos – como a laparoscopia para retirar o óvulo maduro –, não era só a última, mas a única chance.

E deu certo. Na primeira tentativa de Leslie, utilizando o único óvulo amadurecido naturalmente no ciclo, ela engravidou. A implantação bem-sucedida aconteceu no dia 10 de novembro de 1977. Louise Joy Brown veio ao mundo minutos antes da meia-noite do dia 25 de julho de 1978 e seu nascimento se tornou um marco científico para a medicina.

Aqueles que, como eu, ficaram estupefatos com o noticiário matinal do dia 26 de julho, que repercutiu a história do nascimento do bebê mais esperado no mundo inteiro, não poderiam imaginar que, em tão pouco tempo, haveria uma revolução social e científica profunda. Louise foi só o primeiro dos quase 4 milhões de milagres produzidos depois dela e o primeiro resultado de 300 anos de pesquisas que buscavam o entendimento e o controle do processo da reprodução humana.

Desde então, essa ciência não parou de evoluir e surpreender. Poucas atividades científicas têm razão para festejar animadamente cada mínimo índice de incremento em seus êxitos, como a reprodução humana assistida. Cada décimo a mais nas estatísticas de sucesso significa vidas humanas que foram muito queridas e estão inseridas num contexto familiar muito acalentado. Dos pífios resultados de gravidez obtidos no início, hoje a tecnologia e o conhecimento clínico conseguem 55% de bebês nascidos de mulheres com até 35 anos.

Eu, filho de uma família muito unida, hoje pai e avô do meu próprio clã, sempre acreditei na importância de uma boa família como a célula mater de uma boa sociedade. Daí a minha preocupação com a dificuldade de alguns casais em constituir sua família. Compreendo perfeitamente a dor dessa dificuldade e, desde o início de minha carreira como médico, me dediquei à causa da infertilidade, pois acredito que a dor de não poder ter filhos é, na prática, insuportável. É dor que dói na alma, é frustração solitária e muitas vezes incompreendida.

As festas de celebração pelos 30 anos de sucessos da fertilização in vitro comemoram antes de tudo a viabilização de famílias desde sempre amadas. Esse é o verdadeiro milagre da ciência da reprodução humana.

* Roger Abdelmassih é médico especialista em reprodução humana

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